quinta-feira, 22 de julho de 2010

Revelando-me IV


Monólogo de Orfeu - Tom Jobim e Vinícius de Moraes


Me uso como exemplo, me exponho e lanço a dúvida pra gerar mesmo a reflexão, me tiro do armário afim de que a verdade sempre se apresente e o faço há, pelo menos, uma década, embora aprendendo a valorizar isso somente agora. Bem, é a inteção com a única pretenção de produzir o pensar.
Verdade minha que não é necessariamente sua, mas é esse o meu espaço de catarse.
Enfim, falo de mim e daqueles nos quais me reconheço "narcisicamente", e se há alguém que muito tem mexido comigo, é a Maria Bethânia.
Encontrei, como que por acaso, uma entrevista dela à Playboy de novembro de 1996. A entrevista é maravilhosa, perfeita, que sobriedade, seriedade, ética, teatralidade, segurança, controle. Descobri uma identificação sem igual com essa mulher, percebo muito em comum, existe uma dedicação, um aprender de ofício, uma ruptura de padrões... tá, eu sei que Bethânia é única, mas relato uma identificação inexplicável da minha parte.
Curioso como há grandes pontos de contato, escrevi, há pouco que não mudaria nada físico em mim, ela diz isso na entrevista, chegar até onde chegou, sem problemas ou neuras. “Convivo muito bem comigo, não me atrapalho em nada” Isso é ótimo, tenho, ao menos, tentado fazer o mesmo em vários campos do meu existir. Também há outro ponto alto: “Tudo pra mim tem que ter teatro.” Achei, sinceramente, fantástico. Criar sobre, não é puramente encenar, fingir; é envolver, significar, enaltecer, valorizar. Cada momento é mágico, a vida é teatro, cada um protagonista de si. Essa força que vem dela e me toma, essa vida, independência... Costumo dizer que a Elba Ramalho me transmite sexualidade, energia sexual mesmo, pura e simples, acho-a muito “viril” – sexualmente me expressando. Já a Bethânia tem uma liberdade, uma não culpa em suas ações, em seu pensar, agir no palco e fora dele. Claro, há consequências e sei exatamente quais são; as cobranças, a pior das consequências, vêm de toda parte, de nós mesmos, buscando a auto-superação sendo cada vez mais brilhantes, e assim, também, uma aprovação sabe-se lá de quem. (Bem, sempre sabemos, mas já não me interessa mais. Não quero corresponder expectativas). Não é à toa que gostamos de palco, que venho aqui e me uso, me exponho, chamo a atenção pra mim, me faço centro. É engraçado ser estranho entre tantos outros estranhos. Descobrir comportamentos e características antes criticadas por vergonha ou pudor - detesto ditos, mas "quem desdenha quer comprar".
Sobre a Maria, percebo-me escrevendo como se fosse íntimo dela, mas a identificação com a persona Bethânia é tamanha que me sinto, quase, escrevendo sobre parte de mim. Eu e Maricotinha somos maravilhosos! KKKK
Outra maravilha, a paixão – sinto que tenho que estar apaixonado por algo! Nesse momento, que escrevo, me acende uma luz: minhas paixões, descubro agora, viram manias, neuras até. Penso nisso ou naquilo o dia todo. Quero realizar, conseguir, sei lá o que fazer, mas algo aprontarei. A paixão pode ser por alguém, por algo – idéia, coisa - assim foi até eu descobrir a arte e conseguir canalizar melhor essa força. Sempre com paixão, claro.
Cada dia me descubro mais, me revelo, me exponho a mim. Descubro vaidades, vontades, belezas, passo a valorizar características que escondia ou subestimava... como disse a Tianne no comentário pra mim da penúltima postagem: "Nada de falsa modéstia, nada de falso pudor...Sê belo,sê verdadeiro, sê inteiro...Essa,a maior beleza. Nada de "apreciar com moderação". Embriague-se, mas não se perca de si."
Tenho aprendido a me embriagar de mim e até mesmo tentado me perder em mim mesmo. São anos de auto-desmerecimento, subestimação, enfim, esse é o local de eliminação do coitadinho, sem lamúrias; e nada disso tem a ver com a postagem.
Bethânia, ao menos no palco, em sua arte (infelizmente não a conheço pessoalmente, por isso a limitação na fala) é inteira, sem sombra de dúvidas. Ela transpira, inspira-nos, se entrega, nos arrebata. Eu, particularmente, fico hipnotizado por ela. Se ponho o DVD pra tocar, as imagens me absorvem e deixo queimar até o arroz e o feijão.
O curioso é que o meu Narciso se reconhece, muitas vezes, nas mulheres. Tenho paixão por esses seres. Acredito que isso se deva pela forte presença de duas mulheres em minha vida - que me lembram a Bethânia, ou na forma de se vestir, ou na postura, no pensar, na firmeza, na entrega, na coragem - duas tias: Telma Taveira e Iria Selma.
Penso que, em nossa sociedade, a mulher conquistou um espaço de maior expressão de si, de maior espontaneidade. O homem tem sempre que ser macho: não chorar, não rir alto, não expor os sentimentos. (sociedade é massa, massa lembra controle que lembra unanimidade que me faz lembrar que esta é burra.) É, pensam que o homem não sofre castrações e cobranças, se enganam. E dentro de mim (muito castrada) há vida espontânea tão forte que tenho vontade de explodir. Administrar isso é complicado. Mais ainda, quando não entendido, os rótulos estão a solta, voando pelos ares como folhas caindo pós primavera.


Link para a entrevista: http://www.diamanteverdadeiro.hpg.ig.com.br/playboy.html
Link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=KUTiKPPDld4&feature=related

11 comentários:

Marcio Nicolau disse...

Saulo,

a expressão máxima das tuas palavras, pra mim, é: espontaneidade.
Elbas, Bethânias... são forças naturais, masculinas e femininas, que se bipolarizam e confluem.
Por isso mesmo, vc definiu como sendo "viril" a energia de uma delas. As almas não possuem sexo, tampouco se preocupam com os limites. Por isso, teus ídolos te parecem tão livres, porque se entregam não de corpo, mas de alma ao que fazem. Deste modo, rompem tabus, iluminam a escuridão e sobretudo apontam caminhos. Um deles é essa re-significação cotidiana, esse exercício de valorizar o dia-a-dia, sobre o qual você falou. Sinônimo de celebrar a vida. E aí eu volto ao começo: vida espontânea, essa que vc tem dentro de você.
Não sei não, mas acho que tua alma tá querendo escapar. rs

Marcio Nicolau disse...

Outra coisa: seja o centro. Do seu infinito particular.

Angélica Lins disse...

Vir aqui, sempre me arrebata a algo pleno e poético, que reverbera em mim por um longo tempo.

Deixo-te um cheiro.

carmen silvia presotto disse...

Hey, Saulo, que boas revelações!!! Por tuas palavras deslizamos para no ponto final voarmos feito pássaros contentes...

E Monólogo do Orfeu não poderia ser melhor escolha para dialogar com quem te lê, Bethânia também é meu verso, meu silêncio, minha música... parabéns!

Beijos.

Carmen Silvia Presotto
www.vidraguas.com.br

Saulo Taveira disse...

É verdade, Nicolau. Espontaneidade é a minha palavra de ordem. E sim, minha alma quer escapar, já vem fazendo gradativamente e com a tua ajuda. Você tem participação direta nesses processos de (auto) revelação, descobertas e afins.
Obrigado, "garoto trilha sonora"!

Saulo Taveira disse...

Oh Angélica, obrigado pelo carinho.
Me alimento muito no Vórtice. Obrigado pelas trocas que fazemos.
Por esse reverberar intenso.
Bju.

Saulo Taveira disse...

Carmen, obrigado pela visita. Parabéns a você por tamanha sensibilidade. Sigamos voando e navegando por essa conexão de nós.
Bju grande, minha querida.

Marcio Nicolau disse...

Saulo

Veja:

http://vidraguas.com.br/wordpress/

William Moraes disse...

Ai, gente as pessoas usaram palavras tão legais. To com medo agora de comentar! rsrsr
Então serei verdadeiro! Ótimo post.
Engraçado, eu conheço o monólogo do Orfeu a 2 anos, decorei ele depois de uma aula na escola de teatro. Um professor deu ele para avaliação para um amigo, mas eu busquei na internet e decorei, por muito tempo ele foi meu "monólogo teste", o texto que eu apresentava nos testes...
Agora vou me deliciar vendo o vídeo!! Pois eu sabia do filme, no entando não gostei e nem quiz assitir a parte do monólogo novamente! rsrs
Abraço grande Saulo!!

Saulo Taveira disse...

William, todos têm sido muito carinhosos comigo. hehe
O monólogo é lindo e Bethânia o interpreta muito bem, ela brinca com a voz, com as intenções, com tudo.
Obrigado pelo post.

Abração.

António Rosa disse...

Saulo

Vc nem imagina como hoje, passados 30 anos, continuo a sentir uma coisa especial dentro de mim sempre que a ouço.

Belo post.

António