"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não
[pode haver tantos!
(...)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda
[que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades
[do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant
[escreveu.Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta
[ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
(...)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti,
[e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Esse poema está em trechos e são os que mais me identifico, mas há versos que me causam medo: "O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão." Não quero só sonhar ou ter razão. Quero sentir que faço algo por mim e por meu habitat. O tempo está passando como um rio. Ok, dirão que só tenho quase 28 anos, e daí?, passa pra mim da mesma forma que pra você. Tenho, ainda, a urgência da juventude, seu frescor, sua ansiedade, força e desejo.
Minha cabeça fica à 1000. Essa juventuda ansiosa me cega de perceber a evolução e, embora tenha descoberto algo bom e que me difere, ainda não sei usar... volta a necessidade do TEMPO e a EXPERIÊNCIA traziada por este.Não quero crer no tempo, mas ele é importante na nossa evolução; e o poema acima tem o tempo em si todo. Desisto de desistir, VIVA O TEMPO e tudo o que ele no traz. Chega de negações. Revelação!
Outro ponto forte, o trecho em itálico assim está no livro, mas vale o destaque. Buscamos a aprovação dos outros, o que pensam sobre nós, o que queremos que pensem sobre nós. Aviso a todos: SOU O QUE TEM QUALIDADES e o QUE NASCEU PRA TUDO. Sou homem e em cada mão trago uma sacola; em uma, um saco cheio de dúvidas, na outra, um saco transbordando possibilidades.
Beijos a todos.
Livro indicado e bibliografia - Quando fui outro - Fernando Pessoa.


